TI Verde: como empresas brasileiras se adequam ao tema

A área de tecnologia da informação começa a lidar com demandas impostas pela preocupação com a sustentabilidade ambiental

Reduzir o consumo de energia elétrica, o uso de papel e o gasto de combustível; estimular a adoção de produtos com materiais não tóxicos; ajudar a medir os impactos globais da atividade produtiva; inventar novas formas de trabalhar que beneficiem os negócios e o planeta. Tudo isso faz parte da nova demanda dos CIOs, empenhados cada vez mais em integrar o repertório da sustentabilidade ambiental à base das suas estratégias de investimentos em TI.

Pré-requisitos “verdes” já entram nas licitações de organizações públicas e privadas, como o caso do grupo AES Eletropaulo ou da transportadora Águia Branca. E, mais do que isso, a preocupação com as emissões de gases que provocam efeito estufa, além de ser um diferencial competitivo e gerar valor para a imagem corporativa, vai tornar-se em breve uma obrigação legal.

O presidente Lula sancionou em dezembro do ano passado a Lei Nacional de Mudanças Climáticas, que fixou uma meta para redução das emissões de gases estufa no Brasil, de 36,1% a 38,9%, até 2020. O governo de São Paulo também já criou sua própria lei estadual, para passar dos 122 milhões de toneladas ao ano (medida dos gases convertidos em CO²) em 2005, para 98 milhões de toneladas dentro dos mesmos 15 anos. Amazonas, Santa Catarina, Goiás e, desde abril último, Rio de Janeiro também têm sua legislação de mudanças climáticas, e outros estados – como Bahia, Paraná e Tocantins – estão preparando documentos no mesmo sentido.

Ao longo dos próximos meses, no máximo até o final de 2011, especialistas esperam ver a consolidação dos marcos legais da sustentabilidade ambiental em todo o território brasileiro. Com as regulamentações das leis aprovadas, haverá um direcionamento de como, onde e de que forma atingir as metas estabelecidas.

A partir daí, os cortes nas emissões de gases de efeito estufa ganharão a urgência de obrigações legais dentro das empresas e uma parte indissociável de todos os seus processos internos, adverte João Bezerra Leite, diretor da área de infraestrutura e operações de tecnologia da informação do banco Itaú, única empresa brasileira finalista do prêmio de TI verde do Instituto Uptime, uma das maiores autoridades mundiais em certificação de data centers.

Para o diretor do Itaú, há várias razões para buscar ações ambientalmente sustentáveis: “É a coisa certa a fazer; existe uma mobilização mundial nessa direção; as companhias devem estar aderentes à tendência global de regulamentação; e, finalmente, as iniciativas “verdes” trazem retorno concreto”. Como exemplo, Leite cita que o seu banco conseguiu uma economia anual de 500 mil reais no consumo de energia, graças a um processo de modernização de uma parte dos data centers e à virtualização de servidores.

O executivo explica que seu trabalho de TI na área de sustentabilidade tem diferentes linhas de abordagem. A primeira delas trata justamente da eficiência energética. “Essa é a frente que paga a conta, ao tornar os resultados tangíveis. É o patrocinador das demais discussões”, ensina Leite, lembrando que metade da energia gasta pelo banco é consumida por equipamentos de TI ¬ data center, equipamentos de rede, PABX, 30 mil ATMs (terminais de autoatendimento), 70 mil terminais em agências, 45 mil estações de trabalho e impressoras. Dentro da proposta de economizar eletricidade, 10 mil monitores de tubo (CRT) já foram trocados por modelos LCD; e outros 16 mil vão seguir o mesmo caminho este ano.

De acordo com a diretora-geral de sistemas de informação da operadora celular Vivo, Christiane Almeida Edington, um monitor CRT consome o equivalente a 51,49 toneladas de CO² ao ano, em média, em comparação a 15,56 toneladas de CO² anuais no modelo de LCD. “Uma diferença significativa”, diz ela, que usa uma metodologia própria de conversão de Watts em CO² equivalente, com base em um mix de indicadores internacionais. A partir dessa conta, a companhia substituiu 50% dos seus 10 mil monitores por equipamentos mais modernos e que, no início de 2009, representavam apenas 20% do total.

Data center repaginado
O grande devorador de energia, contudo, em se tratando de TI, são os data centers. Os desafios do diretor do Itaú até 2011 incluem ampliar em 30% ao ano a capacidade de processamento de dados e encarecer em apenas 10% a conta de energia do parque instalado. Leite conta que um ambiente de 1,4 mil m² foi modernizado no ano passado, gerando uma redução de 1,5 milhão de kW/hora/ano, o equivalente a uma taxa de 40% do consumo anterior. “Ainda há 3 mil m² de instalações a serem atualizadas”, conta o executivo.

Segundo Leite, os novos ambientes utilizam o modelo conhecido como Next Generation Data Center (NGDC). Entre outras características, usam racks padronizados e têm corredores frios e quentes – as máquinas ficam de frente para as saídas de ar gelado nos pisos e a parte traseira dos gabinetes é confinada em um corredor quente, onde o ar é removido pelas aberturas no teto, impedindo que se misture no mesmo ambiente refrigerado –, técnica que reduz sensivelmente a demanda do ar-condicionado.

A Vivo está iniciando um projeto avançado nessa área. Em meados de abril, a operadora fechou contrato para construir um data center de 4,6 mil m² (medida do piso falso) em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo, afinado com padrões internacionais. Christiane acredita que o ambiente será um dos raros no País com a certificação internacional Leed (Leadership in Energy and Environmental Design).
 
Isso significa obedecer a uma porcentagem de ferro reciclável na obra, utilizar tintas com composições específicas, dispor de sistemas de reutilização de água, ter um estacionamento com vagas preferenciais para veículos a combustíveis de fontes renováveis, corredores quentes/frios para os gabinetes, entre outros. Todos os requisitos foram estabelecidos nos contratos com fornecedores que, em alguns casos, estarão trabalhando pela primeira vez nesse padrão.

“Esse tipo de cuidado encarece em cerca de 15% o projeto”, estima Christiane. Por outro lado, diz, garante ganhos nos custos (Opex) com energia, manutenção e suporte que justificam o investimento. Esse será o principal data center da Vivo, previsto para ficar pronto no segundo semestre do ano que vem. A empresa também vai manter a instalação do seu prédio da capital paulista como backup, e mais um data center, em Campinas (SP), rodando aplicações não críticas. Com isso, vai reduzir os atuais cinco centros de processamento para três unidades.

O gerente sênior e especialista em eficiência em TI da consultoria PriceWaterhousecoopers Brasil, Norberto Tomasini, integra um grupo de trabalho que está traduzindo e adaptando para o País a certificação Leeds. Também fazem parte do grupo de localização do certificado –que deve ser oferecido no mercado em cerca de um ano – representantes do Ministério do Meio Ambiente, técnicos da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), entre outros.

Para Tomasini, a certificação deve fortalecer um movimento amplo de renovação dos data centers, atualmente em curso. Muitos desses ambientes estariam chegando à fase final de sua vida útil, com 30 a 40 anos. Nesse sentido, o casamento do esgotamento com as novas demandas ecológicas podem estimular a tendência de terceirização.

Fonte: TI Verde: como empresas brasileiras se adequam ao tema