Saúde adota TI e vira a página

Pedro Silva (nome fictício) trabalha no extremo da cidade. Passou mal e foi levado ao Centro de Saúde mais próximo, onde foi pré-diagnosticado por um Clínico Geral. Recebeu medicação preventiva e foi encaminhado a um especialista da rede pública em um dos hospitais principais. Lá, fez mais uma bateria de exames e foi medicado novamente, desta vez com remédios especiais para o caso diagnosticado. Recebeu alta. Chegou em casa bem, depois de cruzar o município, mas passou mal novamente durante a madrugada e foi levado a um outro Centro de Saúde próximo a sua residência… Uma pausa para a história: estamos falando de atendimento público e já dá para imaginar qual foi o resultado. Pedro Silva refez todos os exames, foi encaminhado e medicado mais uma série de vezes…

A peregrinação dos cidadãos brasileiros e de outros tantos no mundo, pode ser menos traumática com o uso da tecnologia da informação. Por exemplo, aqui mesmo no Brasil, no Distrito Federal, a falta de informações não é mais problema para os hospitais públicos. A região está perto de se tornar uma referência nacional na área médica, graças ao seu Sistema Integrado de Saúde (SIS), um projeto que prevê a integração entre pediatria, centro cirúrgico, pronto socorro, leitos de UTI, postos de saúde e farmácias por meio de um banco de dados baseado em SQL. A TI chegou à área médica e já posiciona o Brasil como fonte de referência.

Antes mesmo de contar os benefícios e as tecnologias implantados pela Secretária Estadual de Saúde do Distrito Federal (SES-DF), vale o adendo de que suecos, chilenos e indianos já formaram “caravanas” para ver de perto o sistema funcionando. “Sem contar os coordenadores de grandes hospitais brasileiros, como os do Sírio Libanês e do Hospital São Luiz, que estão conversando conosco constantemente para entender as soluções e replicá-las em suas diz José Ruy Demes, assessor da diretoria de gestão de tecnologia da informação (DITEC), para quem tudo consiste numa unificação completa do atendimento de saúde do Distrito Federal.

A regional Samambaia, que engloba um hospital e quatro centros de saúde – a mais procurada no DF – foi a primeira a ter o sistema totalmente implementado. Agora, o cidadão faz um exame e recebe login e senha para retirá-lo via internet, como acontece nos laboratórios particulares. O processo já ultrapassou 6 mil acessos diários ao portal de exames.

“Além disso, todos os médicos têm a sua agenda registrada no sistema e os leitos de UTI da rede pública e privada estão tecnologicamente integrados, de modo que em poucos minutos é possível prever o próximo leito a ficar disponível para os pacientes”, diz Demes. Assim, elimina-se qualquer tipo de indicação para leitos que não seja por razões técnicas. Ou melhor: “honestas”. E o resultado é surpreendente: agora, os leitos procurados na rede pública hospitalar são disponibilizados em 48 horas no máximo. Antes, isso levava mais de uma semana.

Melhor ainda é que a maioria dos atendidos não precisa passar pela UTI. Aliás, 80% deles sequer são avaliados por um médico especialista, de acordo com um estudo da SES-DF. Os Centros Médicos (o popular postinho) – há quatro interligados entre si e ao hospital Samambaia, mas em todo o Distrito Federal existem 74 – tratam todos os pacientes, a partir de atendimentos feitos por Clínicos Gerais.

“Esse médico gera um prontuário eletrônico para o cidadão e solicita, no mesmo instante, o exame por meio de um desktop integrado à rede. Em seguida ele prescreve os medicamentos necessários e gera um protocolo para a farmácia do hospital, que o disponibiliza imediatamente”, diz Demes. “O paciente, então, faz o exame e retorna até o clínico, que acessa o resultado direto do computador. Tudo isso sem um papel”, comenta.

Nos quartos de internação todos os dias os médicos especialistas fazem as visitas para observação e prescrição de novos exames e medicamentos aos pacientes em leito. Isso gerava um volume imenso de informação e contribuía para as estatísticas negativas do setor, cujas estimativas sinalizam baixa produtividade de médicos e enfermeiros. “Gasta-se muito tempo em atividades não relacionadas à terapia do paciente”, diz Avi Zins, consultor de TI, especializado no setor de Saúde. Segundo ele, no Brasil, apenas 40% do tempo do médico é gasto com o paciente, número que baixa para 30% no caso do corpo de enfermagem. Nos Estados Unidos, a relação é de 55% para médicos e 45% para enfermeiros; e na Inglaterra de 45% para médicos e 25% para enfermeiros. “Não estamos muito longe da média negativa do mundo”, brinca.